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Friday, October 20

Golpe Velado


Foi como uma onda. Veio assim, num súbito. Parecia calmo. Apesar de, sinceramente, saber o risco que existia, preferi não acreditar. Continuei brincando no raso. Foi quando olhei para trás e já estava enorme.
Foi assim. Foi assim que a notícia veio. Me assolou. Não dava mais para correr. A correnteza me pegou pelos pés. Me deparei com um muro tão alto quanto branco, muito claro, que me ofuscava os olhos.
A angústia sentida era tão grande que esqueci meu nome.
E, estranhamente, poderia ter dado um nome a ele. Ele que veio. O que eu era agora? O que eu sempre fui? Eu fui alguma coisa antes disso? Isso me torna alguém? Ele me torna especial? Mas o que significa isso? Eu, que nunca entendi o que era, agora era duas. E tinha vida. E tinha vida dentro. Tinha. Mais que agonia!!! Como posso? Como pude? Penso agora no momento e me acho a mais cruel das criaturas. Egoísta.
Mas o que eu podia fazer? O que eu podia dar a ele? Eu queria dar tudo a ele, e não podia dar nada.
E essa vida...essa vida que me vem com outra assim do nada, como que para me dizer, me contar, me avisar que eu sou capaz de gerar algo muito além da minha compreensão. É essa vida que nesse momento me torna tão imaculada e linda quanto frágil. Eu tinha o poder no ventre, mas me faltava a força no coração e a possibilidade do mundo real.
Não era possível agora.
E assim, como um bilhete que se decide comprar, eu apostei no que devia ser feito. E fiz. Não senti nada. Mas mesmo apagada, inconsciente, o barulho do coraçãozinho ecoava e ecoa na minha cabeça. Eu vi, eu vi, eu vi!!! E eu dava tudo para não ter visto, porque sei que essa imagem vai perpetuar para sempre na minha memória.
Aí eu penso: melhor assim.
Mas a sensação que me corroe por dentro ninguém faz idéia. É golpe velado. Barulho calado, de quem estava em duas e agora virou zero. É o louco ato contra o instinto. Contra a natureza. A inquietante solidão que toma conta de mim nessas noites e martela aqui dentro a certeza de que ele...ele não tinha culpa de nada.
Só diz respeito a mim. A mim. O outro? É algo tão meu, tão visceral, que o outro é incapaz de saber, de sentir, de prever, de intuir. É meu. Era meu. A decisão e a escolha foram minhas. Assim como o fardo e a lembrança. Não sei porque essas coisas vêm...mas sei que vêm.
Nunca desejei tanto ser engolida por essa notícia e dádiva novamente e ser capaz. Nunca quis tanto, um dia, ser arrebatada com o peso e a leveza do outro ser e PODER. Poder dar o meu amor. Agora eu sei que será o dia mais feliz da minha vida.

4 Comments:

Blogger Unknown said...

quando é pra acontecer, acontece. quando é pra ser, é.
nao era o momento, nao podemos nos culpar, fez parte de voce, faz parte de voce, portanto nao morreu.

nao sei se interpretei da maneira certa o texto, nao sei se diz respeito a voce, mas dei minha opinião porque sou muito enxerida.

beijinhos,
rachel.

3:46 AM  
Blogger Eduardo Politzer said...

posso mandar esse texto pra alguém?

9:39 AM  
Anonymous Anonymous said...

"essa vida que nesse momento me torna tão imaculada e linda quanto frágil. Eu tinha o poder no ventre, mas me faltava a força no coração "

Fantástico!!

Catharina: sua ansiedade, sua paixão pela poesia, expectativas e frustrações com as coisas, aqui em palavras, tornam você (mais) única..

As suas figuras nos textos estão cada vez melhores, e sua motivação para escrever é, no mínimo, louvável.

Quero saber se algum dia a menina rebelde e apaixonada vai se acalmar. Acho que não. Acho que não teria tanta graça.

Fica o comentário e a lembrança do amigo, conforme prometido. ;)

E que a frágil beleza nunca perca seu encanto...

12:24 AM  
Anonymous Anonymous said...

Me trouxeram até aqui, a forças, apenas para ver isto; admito ter valido mais a pena perceber seu talento na arte do que na vida! Valeu a pena...

10:06 PM  

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